quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Sentido da vida

Olho em frente e lá está Ela. De repente percebo que tudo faz sentido.Ela olha-me e sorri, não consigo ter reacção. Quero que se aproxime, que me embale, que me diga que está tudo bem. Mas Ela apenas sorri e estende-me os braços.O meu corpo reage sozinho, a emoção é enorme e ele apenas quer desfruta-la...Ao chegar ao pé dEla, toca-me ao de leve nos ombros, acaricia-me a face e beija-me os lábios. Mas eu só consigo sorrir. Aproxima-se dos meus ouvidos: —Vem!—A sua voz era uma melodia celestial que só eu conseguia ouvir. Ainda a vê-La vou fechando os olhos, mas descubro que Ela está lá, dentro do meu olhar, a sorrir e a dançar. Convida-me e eu, ansiosa, aceito.A brincadeira de criança que tanta alegria me traz quando recordo, a delícia do primeiro beijo, a alegria de receber algo que tanto queria, o sabor do último sorriso dado por alguém especial… Todos os momentos que recordamos com saudade, afecto e alegria, não são nada, nada comparado com a sensação de estar com Ela.O seu aroma, o seu olhar, o seu sabor, o seu toque, a sua melodia, a sensação.Não quero estar noutro lugar, não quero ver mais ninguém, não quero sair dali!Pega-me nas mãos, aquele toque tão suave desperta-me liberdade, e leva-me para a sua brincadeira de criança.Não quero deixar aquele mundo, sinto que Lhe pertenço, sinto que Ela me pertence, sinto que somos um. Ela sempre esteve lá, à minha espera. Ela é a minha vida!De repente deixo de A sentir, o seu sorriso desvanece-se, o seu olhar torna-se baço, as suas gargalhadas tornam-se gemidos de agonia.Uma dor dilacera-me o peito, sinto o seu sofrimento, tento tocar-Lhe, mas não consigo, Ela está a desaparecer. NÃO! Não depois de tanto procurar, de tanto lutar, Ela não pode simplesmente desaparecer.Corro atrás dEla, não importa que me doía o corpo, pois nunca superará a dor que sinto na alma.Paro. Ela está à minha frente gemendo e pedindo que pare. Sinto-me impotente, se pelo menos soubesse o que a faz sofrer. Levanto a cabeça pedindo ajuda, não sei a quem nem a quê. Respiro fundo e só então percebo. O aroma delicioso tinha desaparecido, sendo substituído por um cheiro forte e agressivo. Abro os olhos e vejo o céu cinzento. Baixo o olhar e estremeço com a minha visão. Nas minhas mãos encontrava-se uma caixa de fósforos e um retalho de pano, num impulso repentino largo os objectos, ao caírem no chão o seu som seco quebrou o silêncio e dos meus olhos começaram a cair lágrimas. Pesso-Lhe perdão e faço-Lhe promessas, mas não adianta, Ela está muito fraca, tenta sorrir, mas não consegue. Finalmente consigo tocar-lhe, peço que se esconda de mim, Ela recusa, quer ficar ao meu lado. Imploro-lhe, mas ela nada faz.Sei que não posso fazer outra coisa, tenho de reagir. Admiro-A, sorrio e sinto-A pela última vez. Viro-lhe costas e corro o mais rápido possível.Sei que Ela estará lá, sei que é a única coisa em que posso confiar, seremos sempre um só, apesar de estar longe, eu pertenço-Lhe, tu pertences-Lhe. Ela não é nossa, Ela somos Nós, Ela é, e vai ser sempre, o nosso maior bem.O seu nome? Talvez tu conheças, mas queiras negar, talvez sorrias quando o disser, ou talvez não. Pois é tão simples de ouvir, mas difícil de ver e sentir. Achas que preciso de o dizer? Ela está à tua volta, Ela é…a Natureza.

Sophia Barziela

Medo e Coragem

“A Morte será apenas o início”

Os seus gritos corriam as profundezas da Floresta. Um som arrancado das suas entranhas, trazendo o sangue das vinganças e glórias de tempos passados e remotos, o desejo escaldante e penoso de um começo.A Figura elevou-se e olhou para os seus fantasmas. O seu olhar era poderoso como uma montanha, decidido como um oceano, ameaçador como um vulcão e cortante como o vento.“O vosso objectivo não será cumprido e a minha missão termina aqui.” A Figura estendeu as mãos e agarrou-o, ergueu-o acima da cabeça e sorriu.

O vento era cortante e gelado, doíam-lhe os ouvidos e as suas asas ganhavam cãimbras. Não tinha consciência do que o rodeava, só tinha um destino e um desejo, nada mais lhe importava, tinha de chegar a tempo...

A Figura não sabia o que fazer, parecia estar à espera de algo e ao mesmo tempo não sabia de quê. Sabia que não havia nada a fazer, por mais que esperasse, sabia que, se aquilo não se fizesse, nada se faria. Tinha de terminar o que tinha começado…

Tinha de voar mais rápido, podia ser tarde de mais, podia falhar, podia perder o que havia de mais importante para si. Esticou as asas, não se importou com a dor nem com o peso do seu corpo, olhou para o horizonte e bateu-as com toda a força…

Tinha-os deixado cair, e tinha-o deixado enterrar. Não sentiu dor alguma, pelo contrário um alívio inundou-lhe o corpo. Não queria baixar a cabeça, não porque não quisesse ver, mas porque sabia que não valeria a pena, mas mesmo assim olhou…

Um forte poder feriu-lhe o peito, não compreendia o que era, sabia que algo tinha a ver com o que ele queria, podia até nem ser… Estava a chegar. O seu corpo começou a descer. Encolheu as asas e embrenhou-se pelos torreões de árvores...

A Figura olhou para cima e sorriu. Um ser magnífico descia até si. Queria chegar-lhe, mas não tinha forças suficientes.Finalmente pousou junto de si e olhou-a, no entanto, não conseguia olhá-la com clareza, tinha o olhar demasiado turvo.

“Porque choras?”— a Figura estendeu um dedo e limpou-lhe as lágrimas. Não conseguiu deixar de reparar como a sua pele era macia e forte.

“Cheguei tarde! Cheguei tarde!” Exausto ajoelhou-se. Pousou as suas mãos junto das dela, que ainda não tinham largado o punhal, envolto num misto de seda e sangue. “Serei tão miserável para merecer tal dor? Serei o mal? Serei o que sofrerá e não saberá porquê? Havia outro caminho! Há outro caminho! Há sempre outro caminho! Porquê?”. A sua voz ia descendo de tom, cheia de mágoa e remorso: “Porquê? Porquê?”

Ela sabia que as perguntas não lhe eram dirigidas, mas estendeu uma mão e ergueu-lhe o queixo.

“Eu não importo…algo tinha de ser feito…ouve-me…”. Engoliu em seco, estava a ficar sem voz e tinha de lhe explicar. “Eu que nunca te conheci… Eu que nunca, em toda a minha vida, senti o que tu eras, sei agora que se…se…se morresse virias”

Cansada e moribunda, caiu. Desesperado o Ser agarrou-a. Não conseguia perceber como era possível, como aquilo podia estar a acontecer.”Que farei eu agora sem ti?” A sua voz era trémula, mas magnífica. Ele continuava com uma das mãos no punhal, ela já o tinha largado.

“Que farás tu?!...Que curioso?!...”—gemeu—“Pergunta a Coragem ao Medo…O que farei eu sem ti?...”Não tinha forças, mas tinha de acabar, pelo menos isto iria acabar.

“Farás tudo!...Conseguirás aquilo que não consegui…Lutarás contra os nossos fantasmas…vancê-los-ás e…e então aí…”—gemeu—“Verás que nunca precisaste de mim”. Ergueu-lhe o seu último olhar forte: “Agora larga-o!”

As lágrimas corriam-lhe pela cara. Nunca tinha pensando que teria de lutar sozinho, nunca pensou que teria de lutar. Agora compreendia, engoliu em seco e pigarreou “Enganas-te, eu nunca conseguiria vir se não fosse por ti. Vim não porque tu vais morrer, mas porque foste tu que me criaste” sorriu-lhe e encostou-lhe a boca à testa, beijando-lha delicadamente.Com esforço, a Figura elevou a sua mão e tocou na dele, a que ainda segurava o punhal, e, sorrindo-lhe, pediu-lhe: “Deixa-me ser um pouco de ti”.

Ambos apertaram as mãos no punhal e, com a força que lhes restava, arrancaram-no.

Debruçou-se sobre a Figura e abraçou-a. Encostou os seus lábios ao rosto dela e sussurrou: “Seremos sempre Um”. Uma lágrima correu o rosto da Figura, ao sentir o doce aroma nos seus lábios, o Ser sorriu e disse: “Agora limpo-te eu a lágrima que me fez viver e respirar” e com carinho limpou uma lágrima corajosamente caída na face do Medo.

Sem Medo Jamais Haverá Coragem!

Sophia Braziela