quinta-feira, 14 de agosto de 2008
O Sentido da vida
Sophia Barziela
Medo e Coragem
“A Morte será apenas o início”
Os seus gritos corriam as profundezas da Floresta. Um som arrancado das suas entranhas, trazendo o sangue das vinganças e glórias de tempos passados e remotos, o desejo escaldante e penoso de um começo.A Figura elevou-se e olhou para os seus fantasmas. O seu olhar era poderoso como uma montanha, decidido como um oceano, ameaçador como um vulcão e cortante como o vento.“O vosso objectivo não será cumprido e a minha missão termina aqui.” A Figura estendeu as mãos e agarrou-o, ergueu-o acima da cabeça e sorriu.
O vento era cortante e gelado, doíam-lhe os ouvidos e as suas asas ganhavam cãimbras. Não tinha consciência do que o rodeava, só tinha um destino e um desejo, nada mais lhe importava, tinha de chegar a tempo...
A Figura não sabia o que fazer, parecia estar à espera de algo e ao mesmo tempo não sabia de quê. Sabia que não havia nada a fazer, por mais que esperasse, sabia que, se aquilo não se fizesse, nada se faria. Tinha de terminar o que tinha começado…
Tinha de voar mais rápido, podia ser tarde de mais, podia falhar, podia perder o que havia de mais importante para si. Esticou as asas, não se importou com a dor nem com o peso do seu corpo, olhou para o horizonte e bateu-as com toda a força…
Tinha-os deixado cair, e tinha-o deixado enterrar. Não sentiu dor alguma, pelo contrário um alívio inundou-lhe o corpo. Não queria baixar a cabeça, não porque não quisesse ver, mas porque sabia que não valeria a pena, mas mesmo assim olhou…
Um forte poder feriu-lhe o peito, não compreendia o que era, sabia que algo tinha a ver com o que ele queria, podia até nem ser… Estava a chegar. O seu corpo começou a descer. Encolheu as asas e embrenhou-se pelos torreões de árvores...
A Figura olhou para cima e sorriu. Um ser magnífico descia até si. Queria chegar-lhe, mas não tinha forças suficientes.Finalmente pousou junto de si e olhou-a, no entanto, não conseguia olhá-la com clareza, tinha o olhar demasiado turvo.
“Porque choras?”— a Figura estendeu um dedo e limpou-lhe as lágrimas. Não conseguiu deixar de reparar como a sua pele era macia e forte.
“Cheguei tarde! Cheguei tarde!” Exausto ajoelhou-se. Pousou as suas mãos junto das dela, que ainda não tinham largado o punhal, envolto num misto de seda e sangue. “Serei tão miserável para merecer tal dor? Serei o mal? Serei o que sofrerá e não saberá porquê? Havia outro caminho! Há outro caminho! Há sempre outro caminho! Porquê?”. A sua voz ia descendo de tom, cheia de mágoa e remorso: “Porquê? Porquê?”
Ela sabia que as perguntas não lhe eram dirigidas, mas estendeu uma mão e ergueu-lhe o queixo.
“Eu não importo…algo tinha de ser feito…ouve-me…”. Engoliu em seco, estava a ficar sem voz e tinha de lhe explicar. “Eu que nunca te conheci… Eu que nunca, em toda a minha vida, senti o que tu eras, sei agora que se…se…se morresse virias”
Cansada e moribunda, caiu. Desesperado o Ser agarrou-a. Não conseguia perceber como era possível, como aquilo podia estar a acontecer.”Que farei eu agora sem ti?” A sua voz era trémula, mas magnífica. Ele continuava com uma das mãos no punhal, ela já o tinha largado.
“Que farás tu?!...Que curioso?!...”—gemeu—“Pergunta a Coragem ao Medo…O que farei eu sem ti?...”Não tinha forças, mas tinha de acabar, pelo menos isto iria acabar.
“Farás tudo!...Conseguirás aquilo que não consegui…Lutarás contra os nossos fantasmas…vancê-los-ás e…e então aí…”—gemeu—“Verás que nunca precisaste de mim”. Ergueu-lhe o seu último olhar forte: “Agora larga-o!”
As lágrimas corriam-lhe pela cara. Nunca tinha pensando que teria de lutar sozinho, nunca pensou que teria de lutar. Agora compreendia, engoliu em seco e pigarreou “Enganas-te, eu nunca conseguiria vir se não fosse por ti. Vim não porque tu vais morrer, mas porque foste tu que me criaste” sorriu-lhe e encostou-lhe a boca à testa, beijando-lha delicadamente.Com esforço, a Figura elevou a sua mão e tocou na dele, a que ainda segurava o punhal, e, sorrindo-lhe, pediu-lhe: “Deixa-me ser um pouco de ti”.
Ambos apertaram as mãos no punhal e, com a força que lhes restava, arrancaram-no.
Debruçou-se sobre a Figura e abraçou-a. Encostou os seus lábios ao rosto dela e sussurrou: “Seremos sempre Um”. Uma lágrima correu o rosto da Figura, ao sentir o doce aroma nos seus lábios, o Ser sorriu e disse: “Agora limpo-te eu a lágrima que me fez viver e respirar” e com carinho limpou uma lágrima corajosamente caída na face do Medo.
Sem Medo Jamais Haverá Coragem!
Sophia Braziela